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Wednesday, November 28, 2007

 

A paz esquecida (parte XI)

Em Paris Jacob foi várias vezes vítima de racismo mas adaptou-se bem devido à sua inteligência e facilidade de relacionamento, até arranjou uma namorada francesa e tirou um curso de direito com a melhor nota do seu ano. Infelizmente a namorada enganou-o e teve muita dificuldade em conseguir arranjar emprego como advogado devido à sua cor. Resolveu formar um movimento para acabar com o racismo e estabelecer direitos iguais para todos. O movimento teve algum sucesso e melhorou a situação das minorias em França mas quando começou a ascender muitos dos colegas de Jacob foram assassinados por razões políticas. Um dia Pierre voltou a ouvir pela terceira vez o choro de Jacob e previu que a sua vida iria mudar outra vez como acontecia sempre que ouvia aquele choro. Perguntou a Jacob o que se passava, ao que este respondeu.
-Não consigo continuar a viver assim, quero voltar para o deserto, quero voltar a ter a vida que tinha com Tera. O ser humano esqueceu-se da terra e de dar valor aos seus frutos, já não dá valor à sua própria vida, à dos outros, aos outros seres vivos, não se dá valor à amizade e ao amor e inventam-se conflitos que só geram infelicidade, no deserto há uma paz de que o ser humano já se esqueceu.
-Tens a certeza?
-Tenho.
-Se tu fores eu vou contigo.
-Vamos.
E foram para o lugar onde Jacob foi feliz com Tera, onde uma paz esquecida pelo ser humano permanece e ali viveram. As povoações daquela zona falavam de dois espíritos do deserto, dois homens, um branco barbudo e um negro alto que viviam como tinham vindo ao mundo e alimentavam-se do que a natureza lhes desse. Estes espíritos, segundo as pessoas que os viam eram espíritos bons e abençoavam aquela região.

FIM

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Tuesday, November 27, 2007

 

A paz esquecida (parte X)

Um dia quando estava a chegar a casa do trabalho ouviu um som que lhe era familiar, à medida que se ia aproximando pôde reparar que era um choro, mas não era um choro qualquer, era o mesmo que num fatídico dia no deserto ouviu e que o levara a conhecer um menino impressionante, que estava nesse preciso momento sentado nas escadas da sua casa a chorar.
-Então Jacob que se passa? – Perguntou Pierre preocupado.
-Mataram o Tera – disse o menino inundado em lágrimas.
Pierre ficou sem palavras e abraçou Jacob durante vários minutos e também ele chorou enraivecido com o ser humano que tinha feito a mesma atrocidade que ele uma vez cometera, que nem se lembrava por sentir que isso pertencia a uma vida passada. Convidou o menino a viver com ele e Jacob aceitou imediatamente. Nos dias seguintes viveram como pai e filho uma amizade rara. As pessoas que viviam naquela zona olhavam para aquela relação com o olhar da desaprovação, tanto os indígenas como os franceses. Decidiram então ir viver para Paris onde Pierre pôs Jacob a estudar, o que o menino adorou pois tinha uma sede imensa de conhecimento.

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Monday, November 26, 2007

 

A paz esquecida (parte IX)

No dia seguinte Pierre foi trabalhar e quando estava a voltar comprou roupa para o novo membro da sua casa. Chegou e ofereceu a Jacob dizendo-lhe que se ele quisesse poderia ficar a viver com ele e que estava disposto a dar-lhe tudo o que precisasse para ser feliz.
-Assim que o Tera estiver bom volto para o deserto que é lá que estamos bem, ao contrário dos leões que me receberam como um filho, as pessoas não aceitam os leões e nunca seria possível viver com ele em sociedade.
-É normal que as pessoas tenham medo do Tera, ele pode ser perigoso.
- As pessoas também tinham medo de mim e do Tera e nós nunca faríamos mal a ninguém, quando o viste ele pareceu-te perigoso ou ameaçador? Ele nunca te faria mal, tu pelo contrário quase que o matavas, afinal quem é que é perigoso?
Pierre ficou espantado e sentiu um enorme aperto no coração.
-Como é que sabes isso?
-O Tera contou-me mas está descansado que ele não ficou chateado contigo nem te quer matar ao contrário de ti que o tentaste matar sem nenhuma razão.
-Tens toda a razão – respondeu Pierre soltando uma lágrima
- Não chores senhor Pierre, eu sei que tu te arrependeste e li nos teus olhos que és um homem bom - disse Jacob a Pierre que se encolhia envergonhado e cada vez mais emocionado.
Pierre apegou-se a Jacob como um pai a um filho e descobriu no miúdo uma sabedoria imensa, não que tivesse muitos conhecimentos mas sabia o que realmente interessava e a sua visão sobre a vida e as suas atitudes eram espantosamente sensatas, aprendeu muito com ele. Quando Tera ficou bom e Jacob lhe disse que iam seguir para o deserto em breve, Pierre pediu-lhe que ficassem que ele lhes daria tudo o que quisessem. Jacob respondeu que no deserto tinham tudo o que queriam. Agradeceu muito a Pierre, abraçaram-se, choraram e lá foi cada um à sua vida. O francês passou os dias posteriores à partida do menino profundamente triste

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Sunday, November 25, 2007

 

A paz esquecida (parte VIII)

Passadas umas horas começou a ouvir um burburinho que vinha lá de fora. Levantou-se e olhou pela janela onde viu à frente do portão da sua propriedade umas centenas de indígenas revoltados a gritar, a rezar e a fazerem rituais compostos por danças e batucadas. Ganhou coragem e foi até lá.

Quando lá chegou identificou um dos seus criados a quem perguntou o que se passava ao que este respondeu:
-Senhor, as pessoas querem que mate ou mande embora o menino mau do deserto e o seu leão.
-Mas o menino não é mau, explique-lhes isso.
O empregado virou-se para a multidão e começou a falar-lhes em voz alta, estes calaram-se e ouviram-no com atenção e depois responderam com gritos e movimentos agressivos, gerando uma discussão acesa que assustou Pierre que não estava habituado a lidar com aquelas pessoas. Passado uns minutos fez-se silencio e as pessoas começaram a desviar-se para deixar passar um senhor de idade muito ornamentado e de túnicas mais coloridas que a maioria dos habitantes. Este senhor chegou e gritou uma série de palavras na língua dos presentes e começou a conversar com o empregado de Pierre. Passado um bocado o empregado virou-se para Pierre e disse que o Ancião tinha que conhecer a criança de forma a compreender se era um espírito mau ou não. Pierre concordou e convidou os dois homens a entrar na sua casa o que levou a multidão a iniciar um cântico que a ele lhe pareceu bonito. Entraram e Pierre pediu-lhes que esperassem. Foi até à divisão onde estava Jacob com Tera e mais uma vez lhe deu a sensação que estavam a conversar.
- Está lá fora o chefe da aldeia que quer falar contigo, não precisas de ir, só vais se quiseres – disse Pierre a Jacob.
-Eu vou, não há problema.
Quando chegaram ao pé dos outros dois indígenas, Jacob baixou a cabeça e começou a falar, o Ancião calou-o com a sua voz grave e sonante e começou a falar alto com o rapazinho que o ouvia com atenção, iniciaram uma conversa que foi primeiro uma discussão exaltada da parte do ancião e calma da parte de Jacob, passado um pouco já parecia estarem-se a entender. Depois de uma tranquila conversa abraçaram-se e olharam-se nos olhos intensamente em silêncio durante cerca de um minuto, voltaram-se a abraçar e despediram-se emocionalmente. Pierre foi levar o empregado e o ancião à porta e já cá fora em cima do patamar da entrada o Ancião começou a falar em voz alta para a multidão que depois de o ouvir entusiasmada manifestou-se alegremente. Pierre baralhado com isto tudo foi falar com Jacob.
-O que é que se passou ali?
-Estive a falar com o ancião da aldeia e contei-lhe a minha história, ao princípio ele teve dificuldade em acreditar mas depois disse que não sentia nenhum espírito mau presente, antes pelo contrário, sentia a presença de um espírito benigno e disse que eu tinha sido enviado pelos espíritos dos leões para abençoar esta região, abraçou-me e disse que me queria voltar a ver.

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Saturday, November 24, 2007

 

A paz esquecida (parte VII)

Pierre não podia acreditar no que ouvia, um miúdo que tinha sido criado por leões, fazia-lhe lembrar uma história que ouvira sobre uma criança na Índia que tinha sido criada na selva por lobos. Mas havia algo de incoerente naquela história, como é que o miúdo falava francês e como é que um leão e uma criança sobrevivem no deserto.

- Desculpa lá Jacob, mas se tu sempre tivesses vivido com leões não conseguirias falar francês. – Lançou Pierre, confrontando o menino do deserto.
O rapaz não mudou a expressão e disse-lhe com toda a naturalidade:
-Os meus pais ensinaram-me a falar francês e outras línguas que acharam ser úteis.
-Tas a gozar comigo? Os leões não falam, como é que podem saber línguas?
-Não falam como falam os humanos mas têm outra linguagem que os humanos não percebem Apesar de não conseguirem falar de forma compreensível aos humanos, percebem os humanos e são muito rápidos a aprender, tendo com o tempo aprendido várias línguas só por interesse e curiosidade.
Pierre não acreditou no rapaz, achou que este ou lhe estava a mentir ou estava a gozar com ele. Por outro lado a naturalidade com que ele falou pareceu ser totalmente sincera e Pierre que achava que tinha o dom de detectar a falsidade na expressão das pessoas, nunca se tendo enganado, começava a duvidar da sua capacidade. Resolveu então desistir da conversa e mudar de assunto.
-Tas com fome?
-Sim, o Tera não chegou a ir caçar.
-Então vou preparar alguma coisa para nós.
Felizmente quando chegou à cozinha reparou que a cozinheira tinha deixado o almoço já feito, pairava no ar um aroma a especiarias, carne de aves e amendoim que lhe abriu o apetite. Espreitou as panelas e ficou deliciado com o aspecto da comida que ainda estava quente. Uma das panelas tinha um frango desossado com molho de amendoim, algo que nunca tinha visto mas que lhe pareceu apetitoso, a outra panela continha um arroz de especiarias com um aroma incrivelmente hipnotizaste e inédito. Serviu dois pratos e trouxe um para si e outro para o rapaz que se agarrou à comida e pôs-se a comer à mão a uma velocidade desesperante. Pierre comeu o seu prato tranquilamente, saboreando cada garfada daquela comida exótica que nunca tinha experimentado e que começava a gostar. Acabou e sentou-se numa poltrona a ler enquanto Jacob foi para ao pé do seu irmão Tera.
Passadas umas horas começou a ouvir um burburinho que vinha lá de fora. Levantou-se e olhou pela janela onde viu à frente do portão da sua propriedade umas centenas de indígenas revoltados a gritar, a rezar e a fazerem rituais compostos por danças e batucadas. Ganhou coragem e foi até lá.

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Friday, November 23, 2007

 

A paz esquecida (parteVI)

Pierre estava cheio de vontade de contar tudo ao miúdo, pedir-lhe desculpa e recompensá-lo pelo mal que lhe fez a ele e ao bicho. Não foi capaz de lhe dizer a verdade mas resolveu que o iria recompensar e dar-lhe tudo o que pudesse.
-Como é que te chamas?
-Jacob - Disse o miúdo – e tu?
-chamo-me Pierre, porque é que há bocado disseste que o leão era teu irmão?
-Porque é senhor.
-Sabes o que é que as pessoas dizem sobre ti?
-Não senhor, até hoje só conhecia o meu irmão Tera, o meu pai, a minha mãe e os meus outros irmãos, as outras pessoas sempre que me vêem escondem-se.
-As pessoas acham que tu és um fantasma mau do deserto e que amaldicoas as suas vidas.
Jacob desatou-se a rir e disse:
- As pessoas são muito estranhas, as coisas que inventam e a maneira como sofrem com elas é ao mesmo tempo cómico e triste.
-Diz-me uma coisa, onde é que tu vives, onde é que está a tua família?
-Eu vivo pelo deserto, onde calhar, mas tem sido aqui por esta zona que temos vivido, eu e o Tera gostamos de passear, então nunca estamos no mesmo sítio, a minha família creio que está onde eu e o meu irmão a deixámos, mais para sul onde há arvores e verde.
-Tu não vives com a tua família? Vives só com o leão? – Perguntou Pierre espantado com o que estava a ouvir.
- Sim desde que temos doze anos, altura em que entramos na vida adulta e devemos experimentar viver sozinhos. Ao contrário do resto dos leões, eu e o Tera resolvemos ir para norte e explorar esta zona de deserto nunca antes habitada por leões e acabámos por nos ambientar, o silêncio do deserto é um fenómeno da natureza que não trocaríamos por nada. Não há sensação melhor do que deitar na areia à noite a contemplar as estrelas e mergulhar na paz deste silêncio.
- Tás-me a dizer que o teu pai, a tua mãe e os teus irmãos são leões.
-Sim senhor e eu também, sou só de um tipo diferente, tu também és diferente de mim e podias ser meu pai ou meu irmão.
Pierre não podia acreditar no que ouvia, um miúdo que tinha sido criado por leões, fazia-lhe lembrar uma história que ouvira sobre uma criança na India que tinha sido criada na selva por lobos. Mas havia algo de estranho naquela história, como é que o miúdo falava francês e como é que um leão e uma criança sobrevivem no deserto.

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Thursday, November 22, 2007

 

A paz esquecida (parte V)

Puseram-se os três em cima do cavalo e dirigiram-se a casa do Dr. Pierre que tinha lá material médico para tratar o ferimento.

Atravessaram os três a civilização, o que aterrorizou a população local que de repente viram o menino que eles pensavam ser o espírito mau do deserto e o seu leão a atravessarem a sua aldeia montados num cavalo e conduzidos por um francês. Após a sua passagem gerou-se o caos e o medo pela população. Chegaram a casa de Pierre e foram recebidos pelos seus empregados a quem pediu ajuda mas que imediatamente fugiram aterrados ao verem o cenário. Entraram com o cavalo dentro da casa pois era a maneira mais fácil e rápida de meter o leão dentro de casa, deitaram-no no chão e Pierre foi buscar material para salvar a vida ao animal.
Pierre teve que ir ao centro hospitalar para onde em breve iria trabalhar, para ir buscar o que lhe faltava para acabar o curativo que estava a fazer no leão e foi então que lhe contaram a história que havia à volta do menino e do leão, o que ele achou ridículo e estranho . Chegou a casa e apanhou o menino a emitir uns roídos para o leão e este a responder-lhe, estranhou mas a situação já era toda ela tão surreal que ele já se começava a habituar ao insólito. Tratou o leão e deu-lhe um analgésico.
-Está fora de perigo, dei-lhe agora uma injecção para ele não ter dores
-Obrigado senhor, estou-lhe muito agradecido – disse o menino abraçando-se a Pierre.
O médico sentiu-se ao mesmo tempo constrangido, emocionado e com um peso na consciência enorme. Afastou-o, olhou para ele e perguntou-lhe:
-O que é que estavas a fazer com um leão, sozinho no deserto?
-Estava a dormir e ele estava a procura de comida para nós, até que acordei com um barulho muito forte e assustei-me, comecei a ouvir o Tera a ganir e fui atrás do som dele, foi então que o vi deitado a contorcer-se. Deve ter sido um animal muito mau e muito forte que lhe fez aquilo, o Tera é muito forte e nunca nenhum animal lhe fez mal.

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Wednesday, November 21, 2007

 

A paz esquecida (parte IV)

  Voltou a sentar-se na areia ainda desorientado consigo mesmo, quando começou a ouvir um som estranho que se vinha aproximando até se tornar nítido e perturbante como um choro, olhou para trás e viu um menino muito escuro, que não devia ter mais de dez anos, tão nu que se viam os ossos, era ele que chorava e num tom que se ouvia com a alma.

 Pierre levantou-se e o rapazinho assustou-se, perguntou-lhe em francês se estava tudo bem, esperando que o rapaz o compreendesse. Surpreendentemente este respondeu num francês tão correcto como o seu que o irmão estava a morrer. Pierre ficou aflito e pediu ao menino que lhe indicasse onde estava o seu irmão, pois ele era médico e talvez o pudesse ajudar. Correram os dois, aproximando-se cada vez mais do leão que levara com o tiro de Pierre. Primeiro pôs em hipótese que o rapaz se referisse ao leão como irmão, depois achou que era só coincidência, quando viu o menino abraçar-se ao leão e a gritar que o ajudasse por favor, Pierre primeiro ficou parvo a olhar para aquilo tudo e depois consciencializou-se que tinha que desfazer o erro e salvar o animal que era tão querido ao pobre rapazinho. Começou a agir com aquela eficiência que só a adrenalina possibilita, imediatamente despiu as roupas, atou umas às outras e enrolou à volta do leão por cima da zona da ferida de forma a estancar o sangue. Tentou levantar o leão do chão mas logo viu que era impossível, voltou a tentar com a ajuda do rapaz mas só conseguiram arrastá-lo dois metros.
-Eu vou a correr buscar algo para transportar o leão e já venho cá buscar-vos, entretanto vai pressionando a zona onde está a ferida Disse Pierre exaltado
-Chama-se Tera senhor, por favor despache-se.
-Sim não te preocupes – gritou Pierre já a correr.
Chegou à civilização completamente estafado de roupa interior, o que pôs tudo a olhar para ele, desatou aos gritos por um cavalo e as pessoas ficaram espantadas a olhar para ele em vez de o ajudarem. Lá encontrou um cavalo, montou nele e seguiu sem se importar se o dono deixaria, quando montou, o dono tentou pará-lo, pondo-se à frente aos gritos, como não havia tempo para explicações, Pierre desviou-se e meteu-se deserto a dentro. Chegou ao pé do menino que estava abraçado a volta do leão a estancar a ferida, enquanto este lhe dava lambidelas como quem diz "não te preocupes vai correr tudo bem". Numa situação normal, levantar uma criatura de 160 quilos para o meter em cima do cavalo seria impossível, mas o instinto protector era tanto que até lhes pareceu fácil. Puseram-se os três no cavalo e dirigiram-se a casa do Dr. Pierre que tinha lá material médico para tratar o ferimento.

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